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Ir contra a maré

Como Economizar na Conta de Energia Pagando Multas

Aprenda uma medida simples para diminuir o valor da fatura de energia de uma edificação pública. Utilize a planilha disponível no final do artigo para prever a economia no seu órgão.

Uma ação tão contra-intuitiva como pagar “multas” pode economizar milhares de reais ao ano para os cofres públicos?

Sim, de acordo com os resultados obtidos pelos engenheiros do TJDFT. Desde 2014, este órgão tem utilizado com sucesso uma metodologia não convencional no cálculo da demanda dos seus contratos de energia elétrica. A ação tem impacto financeiro e ambiental, colocando em prática os princípios da eficiência e da sustentabilidade na Administração Pública.

Este artigo tem como objetivo ensinar esta metodologia a outros gestores de contratos de energia – de qualquer formação -, permitindo a sua aplicação imediata.

Começaremos com a revisão de alguns conceitos essenciais das faturas de energia elétrica.

Demanda e Consumo

As faturas de energia elétrica de edificações com grande consumo de eletricidade têm duas parcelas principais: a demanda (medida em kW) e o consumo de energia (medido em kWh).

Uma analogia ajuda a explicar esses conceitos. Imagine um ônibus de passageiros, no qual o número de lugares disponíveis por viagem (ou por hora) seria a demanda contratada, ou seja, a capacidade máxima (teórica) de transporte disponível por viagem, e o consumo seria o somatório dos passageiros transportados.

Na prática, o número de passageiros efetivamente transportados por viagem seria a demanda registrada, a qual pode ser menor ou maior do que a demanda contratada (caso seja maior, alguns passageiros viajariam em pé).

Rodoviária cheia de passageiros
Altíssima demanda na Rodoviária de Brasília. Foto: GettyImages.com.

Por exemplo, um ônibus com 40 lugares transportou 30 pessoas na primeira viagem, 50 na segunda e 40 na terceira. A “demanda” registrada em cada hora foi 30, 50 e 40 passageiros por viagem, respectivamente. O “consumo” total foi de 120 passageiros.

No caso da energia elétrica, a demanda é a soma das potências elétricas dos equipamentos ligados em um determinado momento. A demanda varia ao longo do dia, pois os equipamentos são ligados e desligados em diferentes instantes, com diferentes regimes de funcionamento. Elevadores e aparelhos de ar condicionado são utilizados de forma diversa de lâmpadas ou computadores, por exemplo. Além disso, a demanda também varia ao longo do ano; em meses quentes o ar condicionado funciona em potência máxima, o que aumenta a demanda registrada pelo medidor da concessionária.

Cobrança da Demanda

O ponto central da definição da demanda contratada é que a concessionária precisa estar preparada para o momento de demanda máxima de cada edificação. A subestação, os transformadores, os postes e os cabos devem ser instalados e mantidos de modo a serem capazes de atender esse pico. Por isso, é fundamental que cada cliente tenha conhecimento da sua demanda, a qual será formalizada em contrato. Essa é a demanda contratada.

A definição do valor pago mensalmente pela demanda se dá da seguinte forma:

  • se a demanda registrada for menor ou igual à demanda contratada, o cliente pagará pela demanda contratada;
  • se a demanda registrada for maior do que a demanda contratada, o cliente pagará pela demanda registrada e ainda poderá pagar uma taxa extra pela diferença entre os dois valores (conhecida como ultrapassagem de demanda).

Quando a demanda registrada ultrapassar 5% para mais a demanda contratada, o cliente pagará pela diferença o dobro do valor normal da demanda (seria como se o passageiro em pé valesse por dois sentados). Esse pagamento é considerado, erroneamente, uma “multa”, a qual pode gerar problemas administrativos caso os envolvidos com a gestão do contrato e do pagamento não tenham a noção correta da sua concepção técnica.

O Problema da Definição da Demanda Contratada

A demanda registrada pode ser encontrada facilmente na fatura de energia no campo de mesmo nome. Vários órgãos e empresas tomam a opção segura de contratar o valor máximo da demanda obtido nas últimas faturas (normalmente por um ano ou mais), evitando assim o pagamento da “multa” por ultrapassagem de demanda.

Contudo, na maioria dos casos, essa não será a melhor solução do ponto de vista financeiro. A contratação de um valor de demanda muito acima da média pode acarretar em desperdício, pois o cliente estará pagando por uma demanda que não será utilizada na maioria dos meses.

Foi pensando nessa encruzilhada, entre contratar uma demanda muito baixa e pagar pela ultrapassagem ou contratar uma demanda alta e pagar pela não utilização, que os engenheiros do TJDFT criaram uma metodologia para encontrar o ponto ótimo de definição de demanda.

Vamos exemplificar a metodologia em um estudo de caso.

Estudo de Caso: Fórum do TJDFT

Em 2016, a demanda contratada do Fórum do Núcleo Bandeirante (TJDFT) era 190 kVA. Ela estava ajustada conforme o pico histórico de 2015, de modo a não pagar pela ultrapassagem. A demanda registrada mensalmente está apresentada na figura abaixo:

Demanda contratada x Demanda real

A linha vermelha mostra a demanda contratada e a linha azul mostra a demanda registrada, que varia mensalmente. A princípio, somos levados a pensar que o quadro é positivo porque não ocorreu ultrapassagem da demanda. Mas é importante notar que em praticamente todos os meses estaríamos pagando por uma demanda não utilizada, conforme a figura a seguir:

Demanda paga e não utilizada

As áreas cinzas mostram o quanto foi gasto com demanda não utilizada. Escolhendo uma demanda um pouco mais baixa, não estaríamos gastando tanto com demanda não utilizada, mas pagaríamos “multas” em um ou mais meses. Essa situação é ilustrada a seguir:

Alternativa pagando multas

Novamente, a área cinza representa os valores pagos mas não utilizados. As áreas vermelhas representam as “multas” pagas. Encontrar um ponto ótimo envolve testar vários cenários diferentes para a demanda contratada.

Calculamos então o custo (em reais) para uma faixa de demandas hipotéticas e simulamos o valor das respectivas faturas. A curva obtida está representada no quadro abaixo:

Valor anual por demanda contratada

Fica claro que solicitar uma demanda baixa demais vai sair caro, pois pagaremos “multas” em excesso. Entretanto, solicitar um valor alto demais sairá mais caro do que pagar “multas” em alguns meses.

Pelo quadro acima, percebemos que a ideia inicial de se evitar a ultrapassagem da demanda contratada e a respectiva “multa” não é a melhor decisão. Por isso destacamos quatro demandas estratégicas para comparação: a máxima registrada em um ano, a média das demandas registradas em um ano, a demanda contratada e o ponto ótimo da curva acima:

Diferentes opções de demanda

Tabela com valores estimados

A tabela acima evidencia que é mais vantajoso pagar “multa” de ultrapassagem em alguns meses e evitar pagar demanda em excesso. Para este estudo de caso, olhando para a figura “Diferentes Opções de Demanda”, vemos como a demanda registrada, linha azul escura, ultrapassa a demanda otimizada em 4 meses do ano.

A economia anual seria de R$ 4.579,38, correspondendo a uma redução de 8,7% do gasto anual da unidade com energia elétrica.

Como Fazer a Estimativa da Demanda

O estudo de caso acima foi calculado com base nas medições do ano anterior. Entretanto, precisamos ajustar a demanda contratada para o ano seguinte.

Com os dados consolidados de 25 contratos dos diversos fóruns do TJDFT dos anos de 2013, 2014 e 2015, utilizamos vários métodos para estimar a demanda ideal para cada unidade em 2015. Depois calculamos o custo de cada estimativa e comparamos com os valores que foram efetivamente pagos em 2015 para avaliar a eficácia de cada método.

Projetamos os valores ótimos dos anos anteriores com e sem tendência. Usar uma tendência significa considerar para o futuro que uma edificação na qual a demanda aumentou (diminuiu) ao longo do ano terá uma demanda ainda maior (menor) nos anos posteriores.

Contra nossas expectativas, os modelos preditivos com tendência não geraram previsões mais precisas em nossas séries históricas. Nas simulações utilizando as faturas dos anos anteriores, os modelos com tendência teriam gerado um custo maior. Ao final do estudo, verificamos que o método mais assertivo era definir para o próximo ano a demanda ideal do ano anterior sem nenhuma correção.

Em 2016, tivemos um bom resultado utilizando esse método. Houve redução de 5% a 13% no pagamento da demanda, o que representou reduções nos totais das faturas na faixa dos R$ 50.000,00 anuais.

Vale ressaltar que, além do método explicado acima, é necessário um estudo de fatores que irão impactar na demanda da edificação no futuro e que devem ser levados em conta; por exemplo: a construção de um novo anexo, a instalação de aparelhos de ar condicionado, alteração da destinação da área, etc.

Planilha para Cálculo Automático da Demanda

Disponibilizamos uma planilha para cálculo da demanda ideal de uma edificação para o período de 12 meses.

Planilha para cálculo automático da demanda

Para utilizar a planilha, basta lançar as 12 últimas medições da demanda registrada encontradas nas faturas de energia de sua edificação. Lance também os valores da tarifa de demanda e de ultrapassagem. A planilha vai calcular automaticamente o valor ótimo da demanda contratada. Posteriormente, a alteração de demanda deverá ser solicitada à concessionária, seguindo as regras descritas pela Resolução nº 414/2010 da ANEEL.

DOWNLOAD DA PLANILHA

Conclusão

Convidamos os colegas que utilizaram a planilha a compartilhar conosco os resultados obtidos, além de outras experiências relativas a esse tema. Os engenheiros do TJDFT estão às ordens para esclarecer quaisquer dúvidas referentes à utilização da planilha e às questões administrativas enfrentadas ao introduzir essa metodologia em um órgão público.

Autores do Artigo

Felipe Pradera Resende – SERMEL/TJDFT

Jackson Bernardes Vasconcelos – SERGEM/TJDFT

Frederico Branquinho Teixeira – SERMEL/TJDFT

3 thoughts to “Como Economizar na Conta de Energia Pagando Multas”

  1. Fiquei na dúvida naquele exemplo dos passageiros:
    hora 1 – 40 passageiros
    hora 2 – 50 passageiros
    hora 3 – 30 passageiros
    totais: 3 horas e 120 passageiros.

    No texto fala em “120 passageiros × hora” – quando li havia entendido 120 passageiros por hora, contudo não é bem isso que esse valor quer dizer.

    Enfim, não entendi o significado direito.

    Parabéns pelo artigo e pela iniciativa!
    Espero ver mais trabalhos de alta qualidade, como este, por aqui :)
    (pensei em enviar um artigo para vocês em contratos de infraestrutura de TI – estou escolhendo um tema para meu TCC é poderia ser esse, totalmente inspirado na proposta de eficiência econômica de vocês …)

    1. Rômulo, boa tarde.
      Fiz uma pequena alteração no exemplo, tentando deixá-lo mais claro.
      Obrigado pela sugestão!

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